No artigo anterior, publiquei apenas as duas primeiras partes - 'A Revolução por Excelência' e 'Revolução e Legitimidade' - do Capítulo VII da parte I, cujo título é "A Essência da Revolução". Neste, publicarei a terceira parte, ou seja, 'Os Valores Metafísicos da Revolução' que resolvi deixar separada das anteriores por ser a parte mais longa.
Espero que gostem!
Parte I
Capítulo VII
A Essência da Revolução
A Essência da Revolução
(3ª parte)
3. A REVOLUÇÃO, O ORGULHO E A SENSUALIDADE - OS VALORES METAFÍSICOS DA REVOLUÇÃO
Duas noções concebidas como
valores metafísicos exprimem bem o espírito da Revolução: a igualdade
absoluta, liberdade completa. E duas são as paixões que mais a servem: o
orgulho e a sensualidade.
Referindo-nos às paixões, cumpre
esclarecer o sentido em que tomamos o vocábulo neste trabalho. Para
maior brevidade, conformando-nos com o uso de vários autores
espirituais, sempre que falamos das paixões como fautoras da Revolução,
referimo-nos às paixões desordenadas. E, de acordo com a linguagem
corrente, incluímos nas paixões desordenadas todos os impulsos ao pecado
existentes no homem em conseqüência da tríplice concupiscência: a da
carne, a dos olhos e a soberba da vida[8].
[8] Cfr. 1 Jo. 2, 16.
A. Orgulho e Igualitarismo
A pessoa orgulhosa, sujeita à autoridade de outra, odeia primeiramente o jugo que em concreto pesa sobre ela.
Num segundo grau, o orgulhoso odeia genericamente todas as autoridades e todos os jugos, e mais ainda o próprio princípio de autoridade, considerado em abstrato.
Num segundo grau, o orgulhoso odeia genericamente todas as autoridades e todos os jugos, e mais ainda o próprio princípio de autoridade, considerado em abstrato.
E porque odeia toda autoridade, odeia também toda superioridade, de qualquer ordem que seja.
E nisto tudo há um verdadeiro ódio a Deus [9].
[9] Cfr. Item “m” infra
Este ódio a qualquer desigualdade tem ido tão longe que, movidas por ele, pessoas colocadas em alta situação a têm posto em grave risco e até perdido, só para não aceitar a superioridade de quem está mais alto.
Mais ainda. Num auge de virulência
o orgulho poderia levar alguém a lutar pela anarquia, e a recusar o
poder supremo que lhe fosse oferecido. Isto porque a simples existência
desse poder traz implícita a afirmação do princípio de autoridade, a que
todo o homem enquanto tal - e o orgulhoso também - poder ser sujeito.
O orgulho pode conduzir, assim, ao igualitarismo mais radical e completo.
São vários os aspectos desse igualitarismo radical e metafísico:
a. Igualdade entre os homens e Deus: daí
o panteísmo, o imanentismo e todas as formas esotéricas de religião,
visando estabelecer um trato de igual a igual entre Deus e os homens, e
tendo por objetivo saturar estes últimos de propriedades divinas. O ateu
é um igualitário que, querendo evitar o absurdo que há em afirmar que o
homem é Deus, cai em outro absurdo, afirmando que Deus não existe. O
laicismo é uma forma de ateísmo, e portanto de igualitarismo. Ele afirma
a impossibilidade de se ter certeza da existência de Deus. De onde, na
esfera temporal, o homem deve agir como se Deus não existisse. Ou seja,
como pessoa que destronou a Deus.
b. Igualdade na esfera eclesiástica:
supressão do sacerdócio dotado dos poderes de ordem, magistério e
governo, ou pelo menos de um sacerdócio com graus hierárquicos.
c. Igualdade entre as diversas religiões:
todas as discriminações religiosas são antipáticas porque ofendem a
fundamental igualdade entre os homens. Por isto, as diversas religiões
devem ter tratamento rigorosamente igual. O pretender-se uma religião
verdadeira com exclusão das outras é afirmar uma superioridade, é
contrário à mansidão evangélica, e impolítico, pois lhe fecha o acesso
aos corações.
d. Igualdade na esfera política:
supressão, ou pelo menos atenuação, da desigualdade entre governantes e
governados. O poder não vem de Deus, mas da massa, que manda e à qual o
governo deve obedecer. Proscrição da monarquia e da aristocracia como
regimes intrinsecamente maus, por antiigualitários. Só a democracia é
legítima, justa e evangélica [10].
[10] Cfr. São Pio X, Carta Apostólica Notre Charge Apostolique, de 25-VIII-1910 - A. A. S., vol. II, pp. 615 a 619.
e. Igualdade na estrutura da sociedade:
supressão das classes, especialmente das que se perpetuam por via
hereditária. Abolição de toda a influência aristocrática na direção da
sociedade e no tônus geral da cultura e dos costumes. A hierarquia
natural constituída pela superioridade do trabalho intelectual sobre o
trabalho manual desaparecerá pela superação da distinção entre um e
outro.
f. Abolição dos corpos intermediários
entre os indivíduos e o Estado, bem como dos privilégios que são
elementos inerentes a cada corpo social. Por mais que a Revolução odeie o
absolutismo régio, odeia mais ainda os corpos intermediários e a
monarquia orgânica medieval. É que o absolutismo monárquico tende a pôr
os súditos, mesmo os mais categorizados, num nível de recíproca
igualdade, numa situação diminuída que já prenuncia a aniquilação do
indivíduo e o anonimato que chegam ao auge nas grandes concentrações
urbanas da sociedade socialista. Entre os grupos intermediários a serem
abolidos, ocupa o primeiro lugar a família. Enquanto não consegue
extingui-la, a Revolução procura reduzi-la, mutilá-la e vilipendiá-la de
todos os modos.
g. Igualdade econômica:
nada pertence a ninguém, tudo pertence à coletividade. Supressão da
propriedade privada, do direito de cada qual ao fruto integral de seu
próprio trabalho e à escolha de sua profissão.
h. Igualdade nos aspectos exteriores da existência:
a variedade redunda facilmente em desigualdade de nível. Por isso,
diminuição quanto possível da variedade nos trajes, nas residências, nos
móveis, nos hábitos etc.
i. Igualdade de almas: a
propaganda como que padroniza todos as almas, tirando-lhes as
peculiaridades, e quase a vida própria. Até as diferenças de psicologia e
atitude entre sexos tendem a minguar o mais possível. Por tudo isto,
desaparece o povo que é essencialmente uma grande família de almas
diversas mas harmônicas, reunidas em torno do que lhes é comum. E surge a
massa, com sua grande alma vazia, coletiva, escrava [11].
[11] Cfr. Pio XII, Radiomensagem de Natal de 1944 – Discorsi e Radiomessaggi, vol. VI, p. 239.
j. Igualdade em todo o trato social: como entre mais velhos e mais moços, patrões e empregados, professores e alunos, esposo e esposa, pais e filhos, etc.
k. Igualdade na ordem internacional:
o Estado é constituído por um povo independente exercendo domínio pleno
sobre um território. A soberania é, assim, no Direito Público, a imagem
da propriedade. Admitida a idéia de povo, com características que o
diferenciam dos outros, e a de soberania, estamos forçosamente em
presença de desigualdades: de capacidade, de virtude, de número etc.
Admitida a idéia de território, temos a desigualdade quantitativa e
qualitativa dos vários espaços territoriais. Compreende-se, pois, que a
Revolução, fundamentalmente igualitária, sonhe em fundir todas as raças,
todos os povos e todos os Estados em uma só raça, um só povo e um só
Estado [12] .
[12] Cfr. Parte I - Cap. XI, 3.
l. Igualdade entre as diversas partes do país:
pelas mesmas razões, e por um mecanismo análogo, a Revolução tende a
abolir no interior das pátrias ora existentes todo o sadio regionalismo
político, cultural, etc.
m. Igualitarismo e ódio a Deus: Santo Tomás ensina[13]
que a diversidade das criaturas e seu escalonamento hierárquico são um
bem em si, pois assim melhor resplandecem na criação as perfeições do
Criador. E diz que tanto entre os Anjos[14] quanto entre os homens, no Paraíso Terrestre como nesta terra de exílio[15],
a Providência instituiu a desigualdade. Por isso, um universo de
criaturas iguais seria um mundo em que se teria eliminado em toda a
medida do possível a semelhança entre criaturas e Criador. Odiar, em
princípio, toda e qualquer desigualdade é, pois, colocar-se
metafisicamente contra os melhores elementos de semelhança entre o
Criador e a criação, é odiar a Deus.
[13] Cfr. Contra os Gentios, II, 45; Suma Teológica, I, q. 47, a. 2.
[14] Cfr. Suma Teológica, I, q. 50, a. 4.
[15] Cfr. op. cit., I, q. 96, a. 3 e 4.
[14] Cfr. Suma Teológica, I, q. 50, a. 4.
[15] Cfr. op. cit., I, q. 96, a. 3 e 4.
n. Os limites da desigualdade: claro está que de toda esta explanação doutrinária não se pode concluir que a desigualdade é sempre necessariamente um bem.
Os homens são todos iguais por
natureza, e diversos apenas em seus acidentes. Os direitos que lhes vêm
do simples fato de serem homens são iguais para todos: direito à vida, à
honra, a condições de existência suficientes, ao trabalho, pois, e à
propriedade, à constituição de família, e sobretudo ao conhecimento e
prática da verdadeira Religião. E as desigualdades que atentem contra
estes direitos são contrárias à ordem da Providência. Porém, dentro
destes limites, as desigualdades provenientes de acidentes como a
virtude, o talento, a beleza, a força, a família, a tradição, etc., são
justas e conformes à ordem do universo[16].
[16] Cfr. Pio XII, Radiomensagem de Natal de 1944 – Discorsi e Radiomessaggi, vol. VI, p. 239.
![]() Dois integrantes do conjunto inglês de rock Rolling Stones. Quando se dá livre curso às paixões desenfreadas, chega-se aos excessos praticados pelos astros do rock e por seus fãs |
A par do orgulho gerador de todo o
igualitarismo, a sensualidade, no mais largo sentido do termo, é
causadora do liberalismo. É nestas tristes profundezas que se encontra a
junção entre esses dois princípios metafísicos da Revolução, a
igualdade e a liberdade, contraditórios em tantos pontos de vista.
a. A hierarquia na alma:
Deus, que imprimiu um cunho hierárquico em toda a criação, visível e
invisível, fê-lo também na alma humana. A inteligência deve guiar a
vontade, e esta deve governar a sensibilidade. Como conseqüência do
pecado original, existe no homem um constante atrito entre os apetites
sensíveis e a vontade guiada pela razão: “Vejo nos meus membros outra
lei, que combate contra a lei da minha razão”[17].
[17] Rom. 7,23.
Mas a vontade, rainha reduzida a
governar súditos postos em contínuas tentativas de revolta, tem meios de
vencer sempre... desde que não resista à graça de Deus[18].
[18] Cfr. Rom. 7,25.
b. O igualitarismo na alma: o processo revolucionário, que visa o nivelamento geral, mas tantas vezes não tem sido senão a usurpação da função retriz por quem deveria obedecer, uma vez transposto para as relações entre as potências da alma haveria de produzir a lamentável tirania de todas as paixões desenfreadas, sobre uma vontade débil e falida e uma inteligência obnubilada. Especialmente o domínio de uma sensualidade abrasada, sobre todos os sentimentos de recato e de pudor.
[18] Cfr. Rom. 7,25.
b. O igualitarismo na alma: o processo revolucionário, que visa o nivelamento geral, mas tantas vezes não tem sido senão a usurpação da função retriz por quem deveria obedecer, uma vez transposto para as relações entre as potências da alma haveria de produzir a lamentável tirania de todas as paixões desenfreadas, sobre uma vontade débil e falida e uma inteligência obnubilada. Especialmente o domínio de uma sensualidade abrasada, sobre todos os sentimentos de recato e de pudor.
Quando a Revolução proclama a
liberdade absoluta como um princípio metafísico, fá-lo unicamente para
justificar o livre curso das piores paixões e dos erros mais funestos.
c. Igualitarismo e liberalismo:
a inversão de que falamos, isto é, o direito de pensar, sentir e fazer
tudo quanto as paixões desenfreadas exigem, é a essência do liberalismo,
isto bem se mostra nas formas mais exacerbadas da doutrina liberal.
Analisando-as, percebe-se que o
liberalismo pouco se importa com a liberdade para o bem. Só lhe
interessa a liberdade para o mal. Quando no poder, ele facilmente, e até
alegremente, tolhe ao bem a liberdade, em toda a medida do possível.
Mas protege, favorece, prestigia, de muitas maneiras, a liberdade para o
mal. No que se mostra oposto à civilização católica, que dá ao bem todo
o apoio e toda a liberdade, e cerceia quanto possível o mal.
Ora, essa liberdade para o mal é
precisamente a liberdade para o homem enquanto “revolucionário” em seu
interior, isto é, enquanto consente na tirania das paixões sobre sua
inteligência e sua vontade.
E assim o liberalismo é fruto da mesma árvore que o igualitarismo.
Aliás, o orgulho, enquanto gera o ódio a qualquer autoridade[19]
, induz a uma atitude nitidamente liberal. E a este título deve ele ser
considerado um fator ativo do liberalismo. Quando, porém, se deu conta
de que, se deixarmos livres os homens, desiguais por suas aptidões e sua
aplicação, a liberdade engendrará a desigualdade, a Revolução, por ódio
a esta, deliberou sacrificar aquela. Daí nasceu sua fase socialista.
Esta fase não constitui senão uma etapa. A Revolução espera, em seu
termo final, realizar um estado de coisas em que a completa liberdade
coexista com a plena igualdade.
[19] Cfr. item “A”, supra.
Assim, historicamente, o movimento socialista é um mero requinte do movimento liberal. O que leva um liberal autêntico a aceitar o socialismo é precisamente que, neste, se proíbem tiranicamente mil coisas boas, ou pelo menos inocentes, mas se favorece a satisfação metódica, e por vezes com aspectos de austeridade, das piores e mais violentas paixões, como a inveja, a preguiça, a luxúria. E de outro lado, o liberal entrevê que a ampliação da autoridade no regime socialista não passa, dentro da lógica do sistema, de meio para chegar à tão almejada anarquia final.
[19] Cfr. item “A”, supra.
Assim, historicamente, o movimento socialista é um mero requinte do movimento liberal. O que leva um liberal autêntico a aceitar o socialismo é precisamente que, neste, se proíbem tiranicamente mil coisas boas, ou pelo menos inocentes, mas se favorece a satisfação metódica, e por vezes com aspectos de austeridade, das piores e mais violentas paixões, como a inveja, a preguiça, a luxúria. E de outro lado, o liberal entrevê que a ampliação da autoridade no regime socialista não passa, dentro da lógica do sistema, de meio para chegar à tão almejada anarquia final.
Os entrechoques de certos liberais
ingênuos ou retardados, com os socialistas, são, pois, meros episódios
superficiais no processo revolucionário, inócuos qui pro quo
que não perturbam a lógica profunda da Revolução, nem sua marcha
inexorável num sentido que, bem vistas as coisas, é ao mesmo tempo
socialista e liberal.
d. A geração do “rock and roll”:
o processo revolucionário nas almas, assim descrito, produziu nas
gerações mais recentes, e especialmente nos adolescentes atuais que se
hipnotizam com o “rock and roll”, um feitio de espírito que se
caracteriza pela espontaneidade das reações primárias, sem o controle da
inteligência nem a participação efetiva da vontade; pelo predomínio da
fantasia e das “vivências” sobre a análise metódica da
realidade: fruto, tudo, em larga medida, de uma pedagogia que reduz a
quase nada o papel da lógica e da verdadeira formação da vontade.
e. Igualitarismo, liberalismo e anarquismo: conforme
os itens anteriores (“a” a “d”), a efervescência das paixões
desregradas, se desperta de um lado o ódio a qualquer freio e qualquer
lei, de outro lado provoca o ódio contra qualquer desigualdade. Tal
efervescência conduz assim à concepção utópica do “anarquismo” marxista,
segundo a qual uma humanidade evoluída, vivendo numa sociedade sem
classes nem governo, poderia gozar da ordem perfeita e da mais inteira
liberdade, sem que desta se originasse qualquer desigualdade. Como se
vê, o ideal simultaneamente mais liberal e mais igualitário que se possa
imaginar.
Com efeito, a utopia anárquica do marxismo consiste em um estado de
coisas em que a personalidade humana teria alcançado um alto grau de
progresso, de tal maneira que lhe seria possível desenvolver-se
livremente numa sociedade sem Estado nem governo.
Nessa sociedade - que, apesar de não ter governo, viveria em plena ordem - a produção econômica estaria organizada e muito desenvolvida, e a distinção entre trabalho intelectual e manual estaria superada. Um processo seletivo ainda não determinado levaria à direção da economia os mais capazes, sem que daí decorresse a formação de classes.
Nessa sociedade - que, apesar de não ter governo, viveria em plena ordem - a produção econômica estaria organizada e muito desenvolvida, e a distinção entre trabalho intelectual e manual estaria superada. Um processo seletivo ainda não determinado levaria à direção da economia os mais capazes, sem que daí decorresse a formação de classes.
Estes seriam os únicos e
insignificantes resíduos de desigualdade. Mas, como essa sociedade
comunista anárquica não é o termo final da História, parece legítimo
supor que tais resíduos seriam abolidos em ulterior evolução.
Assim encerramos o Capítulo VII. Até o próximo!
Assim encerramos o Capítulo VII. Até o próximo!